sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AS EXPERIÊNCIAS DE WALTER BENJAMIN - 1


RESUMO

Esse artigo tem como objetivo refletir sobre o conceito de experiência na obra do filósofo alemão Walter Benjamin e
sua ressonância na atualidade. A partir de pequenos fragmentos, ensaios e críticas literárias redigidas pelo filósofo
no início do século XX é possível compreender como Benjamin se situava num posicionamento teórico plural: por
vezes, denotava as mazelas da sociedade moderna na qual estava inserido, revelando um sentimento nostálgico
em relação a uma experiência perdida. Em outros momentos, ensaiava alternativas possíveis para a elaboração de
novas experiências, tendo como inspiração, principalmente, as obras de Bergson, Baudelaire, do surrealismo,
assim como o uso do haxixe e o cotidiano das crianças. O presente trabalho visa mapear a trajetória de Benjamin
em busca de sua própria experiência, revelando seus ditos poéticos, tecendo uma reflexão sobre as assertivas do
filósofo alemão para a vida contemporânea.
Palavras-chave: Walter Benjamin, experiência, modernidade

ABSTRACT
The objective of this article is to reflect about the experience’s concept in work of Walter Benjamin, and yours
importance to the present time. Being supported by fragments, reviews, essays and others texts from the German
philosopher in begin of the XX century is possible to understand how Benjamin was plural: sometimes he expressed
nostalgia, criticizing the modernity society and the lost of the experience. In other moments, had inspiration of the
surrealism, Henri Bergson, Charles Baudelaire, hashish and the childhood to have a glimmer of news experiences in
modernity. In this presentation I intend to show the trajectory of Benjamin in search of your experience, revealing
your poetics texts and analyzing the reflection of the philosopher to the contemporary.
Keywords: Walter Benjamin, experience, modernity


INTRODUÇÃO
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.
A cada dia se passam muitas coisas porém, ao mesmo tempo, quase nada acontece. Dir-se-ia que tudo o que passa está organizado para que nada nos aconteça  conceito de experiência em Benjamin não é encontrado em uma obra específica. Em vários escritos do
autor esse termo aparece, sendo em quase todos uma ideia central, senão uma expressão que vai se esconder por detrás de outras expressões, palavras e proposições, mas que vai estar de alguma maneira presente. Experiência atravessa estudos de críticas literárias, históricas e sociais, configurando-se um conceito utilizado pelo autor de forma plural. Em todas as ocasiões o termo ganha densidade, peso ideológico e posicionamento político, pois não
se trata de uma expressão fortuita mas de um conceito primordial na obra do filósofo alemão.

POLISSEMIA DO CONCEITO
No texto “Experiência” de 1913, Benjamin constrói uma crítica contundente à pretensa experiência vangloriada pelos adultos e ao fato destes se referirem aos mais jovens não raramente como inexperientes. Por isso, o titulo está entre aspas, pois se trata de uma ironia para com a concepção moderna de experiência. A
“experiência” do adulto é inexpressiva para o jovem, pois ela é tecida em uma rede de dogmas, verdades e pretensões que se ajustam a uma posição autoritária, individual e cética. Quando o adulto se refere a sua experiência pessoal de vida, ele o faz com nostalgia, desesperança e amargura. Em geral, retoma tempos de glória e prazer e os considera fabulosos, porém inúteis às exigências da vida social, já que o "esclarecimento", o “ser sério” só se obtém com o tempo. À lembrança da juventude e da infância soma-se a concepção de um tempo ingênuo, não mais possível. Por outro lado, é sua “experiência”, ou melhor - o número de anos vividos, o
conhecimento adquirido – os pilares que sustentam uma relação autoritária com o jovem. Benjamin ironiza a atuação do adulto, afirmando que experiência não é pilhagem de conhecimento, nem relógio ou calendário. Afirma ainda que a juventude não é apenas uma fase de desvarios mas um momento em que as formas subjetivas não se deixam instituir pelos valores absolutos e morais. Para o alemão, ser sério e esclarecido não é ter sabedoria, como
imaginam os adultos, mas ter pobreza de idéias, petrificando emoções e afetos. Dessa forma, a maneira moderna
de conceituar experiência revela um modo burguês de existência, carente de espiritualidade e sensibilidade. Nesse texto, escrito quando ainda cursava o primeiro ano de faculdade, Benjamim já mostrava sua admiração pela infância e juventude e deixava em suspenso o que, então, poderia significar a sabedoria e a experiência. Para ele, a infância não é um tempo pueril e imaculado, mas uma época enredada pelas lutas sociais, que dialoga com a realidade social existente. Benjamin não acreditava que a criança vivia em um mundo à parte – cria que a criança, apesar de
viver nesse mundo, reinventava suas relações com o mesmo.
O que para o filósofo seria, portanto, experiência? Nos anos 30, Benjamin public ou Experiência e Pobreza, onde delineia o conceito de experiência a partir da constatação de sua perda. O declínio da experiência provém da perda de uma tradição compartilhada por uma comunidade humana; tradição retomada e transformada, em cada geração, na continuidade de uma palavra transmitida de pai para filho. Esta perda acarreta também o
desaparecimento das formas tradicionais de narrativa que têm sua fonte nessa transmissibilidade. A arte de narrar
tornou-se rara pois ela parte da transmissão de uma experiência que já não é possível, pois não há mais condições de vivermos experiências no mundo moderno, mundo excessivamente industrial onde o artesanato é posto em segundo plano, onde as gerações não conseguem mais dialogar entre si, onde o individualismo se sobrepõe ao fazer junto, à criação coletiva... Ademais, o filósofo escrevera esse texto logo após a primeira Grande Guerra,
considerando o então recente acontecimento como representativo da perda da experiência. Observou que os sobreviventes que retornaram das trincheiras voltaram mudos, pois aquilo que vivenciaram não podia mais ser assimilado por palavras.

EXPERIÊNCIA X VIVÊNCIA
“Ficamos pobres”, afirma, “abandonamos as peças do patrimônio humano para receber a moeda miúda do atual”2. Surge uma nova forma de miséria com o desenvolvimento das técnicas modernas. Perante a impossibilidade da experiência tradicional, a Erfahrung, há o aparecimento da Erlebnis, a vivência do indivíduo
solitário. Os meios de comunicação de massa e a conseqüente disseminação da informação de massa, como o jornal por exemplo, são formas de expressão que demonstram as ruínas da experiência nas novas formas de existência. A informação preocupa-se em veicular fatos acompanhados por explicações, aspira a uma verificação imediata, precisa ser compreensível, plausível. As notícias no jornal são diagramadas de forma a não apresentarem
nenhuma relação entre si. O excesso de informação a que o homem moderno se vê confrontado não deixa espaço para a experiência. Quanto mais informados somos, menos coisas nos acontecem. Deleuze também analisava o perigo da informação – o de confundi-la com sabedoria, libertação: “Uma informação é um conjunto de palavras de ordem. Quando nos informam, nos dizem o que julgam que devemos crer. Em outros termos, informar é fazer
circular uma palavra de ordem” 3. O sucesso do romance também evoca o fim da experiência, pois a matriz do romance é o indivíduo em sua solidão, o homem que não sabe mais dar conselhos e a quem ninguém pode dar conselhos, já que o conselho não é intervir na vida de outro mas “fazer uma sugestão sobre a continuação de uma
historia que esta sendo narrada” 4. Ora, não há mais fluxo narrativo comum e vivo entre as pessoas, não há mais troca verdadeira – os indivíduos se atomizaram, criaram cada um o seu próprio núcleo. “Cai a imagem do homem tradicional e surge o contemporâneo nu, deitado como um recém nascido nas fraldas sujas de sua época”5.
Lembremos que o conceito de indivíduo foi elevado ao nível de bandeira política e realidade econômica pelo liberalismo dos séculos XVII e XVIII, sendo uma categoria construída histórica e socialmente. O ser moral independente e autônomo que caracteriza o indivíduo representa a ideologia da modernidade – a ideologia da
época que foi o alvo das críticas de Benjamin.

O FLÂNEUR E A VIVÊNCIA DOS CHOCS
Segundo Benjamin, a obra que tematiza a vivência solitária do homem moderno é a poesia de Baudelaire. 
Este conseguiu mostrar, nem de forma descritiva nem de forma angustiosa, os tempos que despontavam – tempo do individualismo, da grande indústria, do comércio competitivo, da urbanização, da informação. Baudelaire ainda revelou em sua poesia o que seria a vivência do choque, uma das condições históricas modernas que mais impedem que “os interesses interiores do homem sejam incorporados à sua experiência” 6. A vivência do choque é a vivência desencadeada pela urbanização dos grandes centros. A partir do aparecimento da massa urbana na paisagem citadina do século XIX, os cidadãos vão se confrontar nas ruas com
uma série de informações e estímulos. Haverá um contingente de centenas de homens em uma só travessia, todos com pressa para ir ao trabalho, todos presos ao anonimato sem, no entanto, se estranharem, veículos nas pistas, barulhos, ruídos, máquinas, propagandas. Os choques correspondem não a Erfahrung, e sim a Erlebnis: “Quanto maior for a parte do choc em cada impressão isolada; quanto mais estímulos; quanto maior for o sucesso com que
ela opere; e quanto menos eles penetrarem na experiência, tanto mais corresponderão ao conceito de ‘vivência’”7. 
Na obra de Baudelaire, a cidade de Paris não lamentava a opressão da multidão sobre as vidas, pelo contrário. 
Segundo Benjamin, o poeta foi enredado pela massa: “Ele torna-se seu cúmplice e quase no mesmo momento dela se aparta” 8. Se Baudelaire conseguia defrontrar-se com os chocs, considerando-os como princípio poético é porque, naquele momento, o artista assumiu uma nova posição diante da multidão. Para Benjamin, Baudelaire   (continua)


Beatriz de Souza Bessa
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
Centro de Ciências Humanas e Sociais, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Memória Social
Psicóloga
beatrizbessa@yahoo.com.br


Fonte: Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 05, número 09, 2006 - ISSN 1676-2924

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